Este ano, não haveria disputa pela estatueta dourada de melhor filme estrangeiro. O favoritismo do austríaco A Fita Branca (Das Weisse Band, Michael Haneke. Austria, França, Alemanha e Itália, 2009) era tão absoluto, que os jornais presenteavam-no por antecipação com o que há de mais disputa na imprensa: espaço. Mal informavam sobre os concorrentes. No Brasil (não sei se pela geografia ou pelo futebol) sabiamos que tinha um argentino no pleito, não muito mais.
E que argentino! Quatro meses depois de ter levado (ele sim) o oscar de melhor filme estrangeiro, O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella. Argentina, 2009) continua surpreendendo os frequentadores de nossos cinemas ... alternativos (ok, me rendo à alcunha). Desde o prêmio, escuto com frequencia comentários inflados sobre o roteiro e o desfecho da trama, seja no trabalho, no boteco ou (principalmente) nos ônibus lotados que levam à Cidade Universitária.
A Fita Branca é uma obra de arte. Suas imagens foram captadas em cores e passadas para preto e branco. A história é contada em um cinza suave, que duvida da pureza de seus protagonistas, sem maniqueísmos. Dúvida poderia ser com tranquilidade um segundo título para o longa. Misteriosas tragédias domésticas se seguem em uma pequena aldeia alemã, às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial, sem que os culpados sejam sequer apontados. Seriam aquelas crianças, geração que mais tarde formou o exército de Hitler, realmente inocentes?
O mistério é o fio condutor da trama. Não no filme, mas no consciente do expectador. Nas belas telas que se sucendem com uma lentidão incomum em produções de suspense, não se passa nada mais que a vida cotidiana de camponeses austeros - aliás, muito parecida com a dos meus avos mineiros. A tensão está na expectativa de quem assiste, de que aquela série de 'acidentes' redundará em uma revelação.
Mas o final é tão comum quanto a vida das personagens. Ele se exime de uma solução e de um porquê, o que é a beleza e ao mesmo tempo a limitação do A Fita Branca. Enquanto desperta a plateia de suas expectativas viciadas, o longa desiste de resolver os conflitos que criou. A bela estética fica só e assume que não tem uma grande história que a sustente. O filme se torna raso.
Já em O Segredo dos Seus Olhos, os desfechos se multiplicam. Uma sucessão de clímax leva o espectador a pré-sentir o final, para logo se surpreender com uma 'solução' ainda mais inteligente para o caso mais intrigante que o promotor aposentato Benjamín Esposito teve em sua carreira. Por trás das câmeras em movimento, das esquinas de uma Buenos Aires europeia, do olhar aceso dos atores ou do dedilhar de um piano triste há um assunto universal: a justiça - ou a ausência dela.
Como Haneke, Campanella se propõe a contar um caso de polícia de forma mais realista, humana. Ambos matêm a tensão e dão as peças do enigma a conta-gotas. O grande diferencial, é que o argentino se compromete a montar o quebra-cabeça. Ele fecha sua nada rasa reflexão sobre o sistema penal e presenteia o público com um grand finale. O melhor que já vi.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Não dá para mudar de assunto?
Quem não é filho único nem irmão caçula sabe o que é ter ciúmes da chegada de um irmão. Se não sabe, é porque era tão criança que ainda não tinha aquela habilidade de memorizar mágoas que a razão dá a quem cresce.
E quem não se perguntou o que vai ser quando crescer? Melhor, quem nunca foi coagido a responder essa questão existencialista, fosse nas 30 linhas de uma redação da escola ou na visita de uma tia distante que não tinha mais o que perguntar? Aliás, os adultos são cruéis. Entre si, usam o clima, o futebol, a moda para começar uma conversa. Com as crianças, falam a queima-roupa sobre papai-do-céu, 'quando crescer', 'pode e não pode' ... assuntos para os quais nem eles mesmos, nem a Filosofia, têm uma resposta redonda.
Foto: Imovision/Divulgação
Enquanto busca a tal resposta que a sociedade tanto lhe cobra, Nicolau, uma espécie (em extinção) de garoto popular sem consciência de seu carisma, arma mil planos com os colegas para não ser abandonado pelos pais quando o irmão nascer. A imaginação do grupinho e, mais ainda, seu sincero empenho em cumprir missões impossíveis aos olhos de um barbudo sensibiliza qualquer plateia. Fica no sorriso bobo dos expectadores a nostalgia do tempo em que sonhar era coisa séria.
Já o cinema, ao ascender as luzes, deixa nostalgia do próprio filme, de uma leveza, despretensão e universalidade que pouco se vê em cartaz. Infelizmente, 'Amélies Poulain' e 'Nicolaus' estão em poucos roteiros de nossa geração. Empenhada em fazer do Cinema uma extensão do noticiário, ela não percebe que constrói um dos primeiros clichês do século XXI.
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