sábado, 3 de julho de 2010

Não dá para mudar de assunto?

Quem não é filho único nem irmão caçula sabe o que é ter ciúmes da chegada de um irmão. Se não sabe, é porque era tão criança que ainda não tinha aquela habilidade de memorizar mágoas que a razão dá a quem cresce.

E quem não se perguntou o que vai ser quando crescer? Melhor, quem nunca foi coagido a responder essa questão existencialista, fosse nas 30 linhas de uma redação da escola ou na visita de uma tia distante que não tinha mais o que perguntar? Aliás, os adultos são cruéis. Entre si, usam o clima, o futebol, a moda para começar uma conversa. Com as crianças, falam a queima-roupa sobre papai-do-céu, 'quando crescer', 'pode e não pode' ... assuntos para os quais nem eles mesmos, nem a Filosofia, têm uma resposta redonda.

O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, França, 2009 - adaptação da obra de René Goscinny) também não sabe o que vai ser quando usar calças compridas. Seu amigo Rufus quer ser policial que nem o pai. Já o Eudes, que sempre apanha do próprio pai, quer ser bandido. "Se não existe bandido, não existe policial", justifica o briguento da classe. O Alceste, que dá uma aula de embutidos na vitrine do açougue e não perdoa nem a maçã da professora, vai ser ministro: um jeito de estar em todos os banquetes e comer do bom e do melhor.


Foto: Imovision/Divulgação

Enquanto busca a tal resposta que a sociedade tanto lhe cobra, Nicolau, uma espécie (em extinção) de garoto popular sem consciência de seu carisma, arma mil planos com os colegas para não ser abandonado pelos pais quando o irmão nascer. A imaginação do grupinho e, mais ainda, seu sincero empenho em cumprir missões impossíveis aos olhos de um barbudo sensibiliza qualquer plateia. Fica no sorriso bobo dos expectadores a nostalgia do tempo em que sonhar era coisa séria.

Já o cinema, ao ascender as luzes, deixa nostalgia do próprio filme, de uma leveza, despretensão e universalidade que pouco se vê em cartaz. Infelizmente, 'Amélies Poulain' e 'Nicolaus' estão em poucos roteiros de nossa geração. Empenhada em fazer do Cinema uma extensão do noticiário, ela não percebe que constrói um dos primeiros clichês do século XXI.

Um comentário:

  1. Oi, Kívia. Fale mais sobre o filme. É um filme francês de última safra? Estou para escrever sobre um filme que gostei: Up in the Air, Amor sem Escalas.

    Abs do Lúcio Jr.

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