A popular coleção de estátuas cadavéricas em movimento fica em São Paulo só até hoje (26.09). O visitante pode ver, com detalhes de nervos, músculos, cartilagens e gordurinhas, o que tem por debaixo da pele de um jogador de basquete chinês no exato momento em que ele lança uma bola ou que acontece no corpo de uma mulher chinesa que simplesmente caminha.
O passeio é o melhor lugar que existe para uma aula de anatomia, fascinante para estudantes de Medicina, Enfermagem, Biologia e para os que trabalham de branco em geral. Para os outros, nem tanto. A técnica de silicone líquido emborrachado aplicada pelo doutor Roy Glover e sua equipe da Universidade de Michigan na conservação de tecidos mais espanta do que ensina os visitantes. Sozinhos, os corpos não fazem mais do que impressionar. O que até pode ser o objetivo dos expositores, mas não o do público geral, que organiza excursões e leva crianças para as salas.
Mas, sim, há explicações. Elas são o que há de melhor na exposição, aliás. É verdade que os textos que acompanham as 'peças' são longos, científicos e difíceis de enxergar, mas os painéis que dividem a exposição têm informações valiosas! O melhor é se distanciar da muvuca (sim, vai estar cheio) e grudar na parede para saber que o espermatozoide é a menor célula do corpo humano e o óvulo e a maior. Há informações preciosas sobre o funcionamento do coração e do cérebro (que se atrofia quando não é usado).
Outra dica para aproveitar a mostra é grudar o ouvido nos comentários alheios. Há médicos disfarçados em coloridas roupas de dia de folga que vão dar aquela tal aula de anatomia que seria perfeita para o momento. Outros vão desarmar a morbidez dos cadáveres com seus comentários triviais – e humanos:
Uma mulher aperta a bolsa e os olhos enquanto observa os detalhes de uma mão isolada em uma das redomas de vidro. A amiga chega e: “Ai, que unha feia, né?”. “Verdade, nem para lixar...”. E vão para a próxima sala.
sábado, 25 de setembro de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
A não-palestra de Jostein Gaarder
O escritor norueguês Jostein Gaarder é conhecido por aproximar a Filosofia dos leigos. Seu best-seller, O Mundo de Sofia (Sofies Verden), já foi traduzido para mais de 50 idiomas desde o seu lançamento, em 1991. Pelo menos 30 milhões (veja bem, 6 vezes a população da Noruega) de adolescentes, professores e curiosos de toda a espécie já seguiram as aventuras de Alberto Knox e sua pupila Sofia pela a história da Filosofia, dos pré-socráticos ao nosso contemporâneo Jean-Paul Sartre. Gaarder, que sempre repete em entrevistas sua perplexidade pelo sucesso de um tema pouco popular, disse, recentemente que está satisfeito com o interesse de Hollywood em filmar o romance: vai alcançar ainda mais pessoas.
Fiquei pensando ontem com os botões de um casaco pesado, em uma das noites mais frias de SP, o que Jostein Gaarder teria feito se soubesse do caminho percorrido por quem não assistia à sua palestra na 21 Bienal do Livro de São Paulo, do número de pessoas que ela deixou de atingir por simples força das normas.
Na noite de ontem, o norueguês lançava seu mais novo romance, O Castelo nos Pirineus, para um público de seletas 150 pessoas, comportadamente acomodado em cadeiras brancas (muito) bem espaçadas. Ninguém podia sentar no chão nem ficar em pé, só a imprensa. O auditório era uma redoma de vidro encapada com fotos de Clarice Linspector, exceto por um retângulo vertical que permitia ao público exterior contemplar a principal atração da feira sem ouví-lo. Como, em um evento literário, a estética pode ser mais importante que as palavras?
Mas voltemos ao espaço, de cerca de 100 m², menor do que o estande de várias editoras que vendiam seus volumes sem descontos. Enquanto participava do quadro "O Mundo de Gaarder", tal como a Sofia-mera-personagem-de-uma-história-e-sujeita-a-forças-maiores, Jostein provavelmente nem vislumbrava que existia um mundo muito maior lá fora. O Anhembi tem uma área de 400 mil m² e seu pavilhão de exposições precisa ser divido em ruas e esquinas para que os participantes não se percam.
Lá, de dentro do aquário, Gaarder não sabia da fila de mais de uma hora que se formava literalmente atrás dele, bem às suas costas. Nela, estavam pessoas que não conseguiram pegar uma das 150 senhas que foram distribuídas às 17h, duas horas antes do início da palestra. Pessoas que, pelo sotaque, vinham de muitos lugares e de bem longe. Leitores que tentavam argumentar com as impávidas moças de terno preto que não precisavam de um aparelho de tradução simultânea, que falavam bem inglês e queriam só um lugarzinho na porta. Em vão. Meia hora após o início da conversa (só então), mais uma agente da estética percorre a fila: "Ninguém mais entra! Ninguém mais entra!".
E o mais revoltante para o final: como saber que era necessário pegar senhas para assistir à palestra e como saber a que horas elas seriam distribuídas? Em nossa bola de cristal, é claro! No site do evento, não há informações sobre senha. Não há também um número de telefone para tirar dúvidas, sequer um endereço de e-mail. No menu 'contato', tudo o que consta é um formulário para ser preenchido, enviado e sabe-se lá quando respondido. Nem o contato de telefone disponibilizado para a imprensa atendia na tarde de ontem. Sorte de quem chegou muito cedo e ouviu falar da distribuição de senhas, como uma leitora com quem conversei. Ela passou pelo local por volta das 16h, viu uma fila “gigante” e ficou. Quem chegou depois teve que se contentar em observar pelo vidro - alguém pensou em zoológico? - o escritor que quer atingir todos e sua conversa com os escolhidos por um evento que quer (?) deselitizar a literatura. Só faltou uma legenda para os desavisados: Homo sapiens paradoxos.
Fiquei pensando ontem com os botões de um casaco pesado, em uma das noites mais frias de SP, o que Jostein Gaarder teria feito se soubesse do caminho percorrido por quem não assistia à sua palestra na 21 Bienal do Livro de São Paulo, do número de pessoas que ela deixou de atingir por simples força das normas.
Na noite de ontem, o norueguês lançava seu mais novo romance, O Castelo nos Pirineus, para um público de seletas 150 pessoas, comportadamente acomodado em cadeiras brancas (muito) bem espaçadas. Ninguém podia sentar no chão nem ficar em pé, só a imprensa. O auditório era uma redoma de vidro encapada com fotos de Clarice Linspector, exceto por um retângulo vertical que permitia ao público exterior contemplar a principal atração da feira sem ouví-lo. Como, em um evento literário, a estética pode ser mais importante que as palavras?
Mas voltemos ao espaço, de cerca de 100 m², menor do que o estande de várias editoras que vendiam seus volumes sem descontos. Enquanto participava do quadro "O Mundo de Gaarder", tal como a Sofia-mera-personagem-de-uma-história-e-sujeita-a-forças-maiores, Jostein provavelmente nem vislumbrava que existia um mundo muito maior lá fora. O Anhembi tem uma área de 400 mil m² e seu pavilhão de exposições precisa ser divido em ruas e esquinas para que os participantes não se percam.
Lá, de dentro do aquário, Gaarder não sabia da fila de mais de uma hora que se formava literalmente atrás dele, bem às suas costas. Nela, estavam pessoas que não conseguiram pegar uma das 150 senhas que foram distribuídas às 17h, duas horas antes do início da palestra. Pessoas que, pelo sotaque, vinham de muitos lugares e de bem longe. Leitores que tentavam argumentar com as impávidas moças de terno preto que não precisavam de um aparelho de tradução simultânea, que falavam bem inglês e queriam só um lugarzinho na porta. Em vão. Meia hora após o início da conversa (só então), mais uma agente da estética percorre a fila: "Ninguém mais entra! Ninguém mais entra!".
E o mais revoltante para o final: como saber que era necessário pegar senhas para assistir à palestra e como saber a que horas elas seriam distribuídas? Em nossa bola de cristal, é claro! No site do evento, não há informações sobre senha. Não há também um número de telefone para tirar dúvidas, sequer um endereço de e-mail. No menu 'contato', tudo o que consta é um formulário para ser preenchido, enviado e sabe-se lá quando respondido. Nem o contato de telefone disponibilizado para a imprensa atendia na tarde de ontem. Sorte de quem chegou muito cedo e ouviu falar da distribuição de senhas, como uma leitora com quem conversei. Ela passou pelo local por volta das 16h, viu uma fila “gigante” e ficou. Quem chegou depois teve que se contentar em observar pelo vidro - alguém pensou em zoológico? - o escritor que quer atingir todos e sua conversa com os escolhidos por um evento que quer (?) deselitizar a literatura. Só faltou uma legenda para os desavisados: Homo sapiens paradoxos.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Resistência pela memória: 65 anos sem Hiroshima e uma (inesquecível) noite em Milão
Dia desses, nas minhas últimas horas de trabalho no meu trabalho derradeiro, conversava com uma amiga nipônica sobre .... hmm, ok, confesso que tudo começou com mais um dos meus causos.
Já ao final de uma jornada cansativa, um amigo me liga chamando para ir ao cinema. Era uma noite fria, sem neve, dos etílicos meses sóbrios em que vivi em Milão. A idéia era ir a um cinema diferente, de rua, nada de imex. Aceitei, claro, mas não sem desejar que a película fosse dublada e bem palatável. A dor de cabeça me escravizava.
Mal estacionamos nossa vespa em frente ao tal espaço alternativo, Jacopo cisma em ver um 'Cartas de Iwo Jima', com áudio japonês e legenda em italiano. A dor de cabeça era tanta que nem animei discutir. Entramos na sala escura.
Já ao final de uma jornada cansativa, um amigo me liga chamando para ir ao cinema. Era uma noite fria, sem neve, dos etílicos meses sóbrios em que vivi em Milão. A idéia era ir a um cinema diferente, de rua, nada de imex. Aceitei, claro, mas não sem desejar que a película fosse dublada e bem palatável. A dor de cabeça me escravizava.
Mal estacionamos nossa vespa em frente ao tal espaço alternativo, Jacopo cisma em ver um 'Cartas de Iwo Jima', com áudio japonês e legenda em italiano. A dor de cabeça era tanta que nem animei discutir. Entramos na sala escura.
Passados três anos, muitas sessões de cinema e 65 verões desde a devastação de Hiroshima e Nagazaki, hoje não posso fazer menos que recomendar o filme. Apesar de anglófono, Clint Eastwood dá um poderoso retrato do que foi a agonia e, sobretudo, a resistência japonesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Cartas, mensagens, palavras, lembranças. Com uma fotografia impecável, o espectador ocidental é tocado pelo o que mais lhe falta em se tratando do conflito: informações sobre quem estava do outro lado – o dos mais fracos. A 2GM foi provavelmente uma das poucas guerras em que a história foi contada também sob a ótica dos vencidos. Culpa da curiosidade que despertaram a loucura de Hitler e o carisma de Mussolini.
Mas ainda se sabe muito pouco sobre o que aconteceu no oriente. Sabe-se pouco sobre os ‘perdedores’ de fato: a população dos países do Eixo, espremida entre os ataques dos aliados e a crueldade de seus ditadores. Essas pessoas se organizaram e resistiram como puderam. Mas o que se sabe sobre isso? Teste rápido: quantos filmes conhecemos sobre os partigiani ? Aliás, alguém sabe quem eles foram? (recomendo o singelo e fascinante livro 'I sentieri dei Nidi di Ragni', do cubano Ítalo Calvino).
No aniversário dessa tragédia, não podemos fazer menos que lembrar os que resistiram. Recordar histórias como a do pai de minha colega de redação, que percorreu a pé metade da ilha de Okinawa para escapar dos americanos. Quanto a nós, geração de hoje, temos a missão de resgatar e reverberar essas memórias. Elas são a linha de frente da resistência contra injustiças e os novos massacres que se insinuam.
-----------
Mas ainda se sabe muito pouco sobre o que aconteceu no oriente. Sabe-se pouco sobre os ‘perdedores’ de fato: a população dos países do Eixo, espremida entre os ataques dos aliados e a crueldade de seus ditadores. Essas pessoas se organizaram e resistiram como puderam. Mas o que se sabe sobre isso? Teste rápido: quantos filmes conhecemos sobre os partigiani ? Aliás, alguém sabe quem eles foram? (recomendo o singelo e fascinante livro 'I sentieri dei Nidi di Ragni', do cubano Ítalo Calvino).
No aniversário dessa tragédia, não podemos fazer menos que lembrar os que resistiram. Recordar histórias como a do pai de minha colega de redação, que percorreu a pé metade da ilha de Okinawa para escapar dos americanos. Quanto a nós, geração de hoje, temos a missão de resgatar e reverberar essas memórias. Elas são a linha de frente da resistência contra injustiças e os novos massacres que se insinuam.
-----------
E a noite não acabou por ali, com o casting de atores orientais...A moto de Jacopo quebrou, bem em frente ao cafe do cinema. Fiquei alguns longos minutos tentando tirar o capacete da cabeça, enquanto meu amigo tentava (sem um pingo de silêncio) fazer a motoca funcionar. Nada. Tivemos que empurrar a magrela até a casa de Jacopo, que, por sorte, não era muito longe. Depois do mico, já naquela peculiar cozinha ornada com armações de óculos, ecco a recompensa: uma caprichada fatia de bolo de laranja, chazinho com uma pitada de açúcar e aquelo dedo de prosa. Já às portas da madrugada, Jacopo suspira e, com algum pesar, abandona seu hábito italiano: tira um belo carro da garagem e me leva para casa em quatro rodas.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A diferença que faz um final
Este ano, não haveria disputa pela estatueta dourada de melhor filme estrangeiro. O favoritismo do austríaco A Fita Branca (Das Weisse Band, Michael Haneke. Austria, França, Alemanha e Itália, 2009) era tão absoluto, que os jornais presenteavam-no por antecipação com o que há de mais disputa na imprensa: espaço. Mal informavam sobre os concorrentes. No Brasil (não sei se pela geografia ou pelo futebol) sabiamos que tinha um argentino no pleito, não muito mais.
E que argentino! Quatro meses depois de ter levado (ele sim) o oscar de melhor filme estrangeiro, O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella. Argentina, 2009) continua surpreendendo os frequentadores de nossos cinemas ... alternativos (ok, me rendo à alcunha). Desde o prêmio, escuto com frequencia comentários inflados sobre o roteiro e o desfecho da trama, seja no trabalho, no boteco ou (principalmente) nos ônibus lotados que levam à Cidade Universitária.
A Fita Branca é uma obra de arte. Suas imagens foram captadas em cores e passadas para preto e branco. A história é contada em um cinza suave, que duvida da pureza de seus protagonistas, sem maniqueísmos. Dúvida poderia ser com tranquilidade um segundo título para o longa. Misteriosas tragédias domésticas se seguem em uma pequena aldeia alemã, às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial, sem que os culpados sejam sequer apontados. Seriam aquelas crianças, geração que mais tarde formou o exército de Hitler, realmente inocentes?
O mistério é o fio condutor da trama. Não no filme, mas no consciente do expectador. Nas belas telas que se sucendem com uma lentidão incomum em produções de suspense, não se passa nada mais que a vida cotidiana de camponeses austeros - aliás, muito parecida com a dos meus avos mineiros. A tensão está na expectativa de quem assiste, de que aquela série de 'acidentes' redundará em uma revelação.
Mas o final é tão comum quanto a vida das personagens. Ele se exime de uma solução e de um porquê, o que é a beleza e ao mesmo tempo a limitação do A Fita Branca. Enquanto desperta a plateia de suas expectativas viciadas, o longa desiste de resolver os conflitos que criou. A bela estética fica só e assume que não tem uma grande história que a sustente. O filme se torna raso.
Já em O Segredo dos Seus Olhos, os desfechos se multiplicam. Uma sucessão de clímax leva o espectador a pré-sentir o final, para logo se surpreender com uma 'solução' ainda mais inteligente para o caso mais intrigante que o promotor aposentato Benjamín Esposito teve em sua carreira. Por trás das câmeras em movimento, das esquinas de uma Buenos Aires europeia, do olhar aceso dos atores ou do dedilhar de um piano triste há um assunto universal: a justiça - ou a ausência dela.
Como Haneke, Campanella se propõe a contar um caso de polícia de forma mais realista, humana. Ambos matêm a tensão e dão as peças do enigma a conta-gotas. O grande diferencial, é que o argentino se compromete a montar o quebra-cabeça. Ele fecha sua nada rasa reflexão sobre o sistema penal e presenteia o público com um grand finale. O melhor que já vi.
E que argentino! Quatro meses depois de ter levado (ele sim) o oscar de melhor filme estrangeiro, O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella. Argentina, 2009) continua surpreendendo os frequentadores de nossos cinemas ... alternativos (ok, me rendo à alcunha). Desde o prêmio, escuto com frequencia comentários inflados sobre o roteiro e o desfecho da trama, seja no trabalho, no boteco ou (principalmente) nos ônibus lotados que levam à Cidade Universitária.
A Fita Branca é uma obra de arte. Suas imagens foram captadas em cores e passadas para preto e branco. A história é contada em um cinza suave, que duvida da pureza de seus protagonistas, sem maniqueísmos. Dúvida poderia ser com tranquilidade um segundo título para o longa. Misteriosas tragédias domésticas se seguem em uma pequena aldeia alemã, às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial, sem que os culpados sejam sequer apontados. Seriam aquelas crianças, geração que mais tarde formou o exército de Hitler, realmente inocentes?
O mistério é o fio condutor da trama. Não no filme, mas no consciente do expectador. Nas belas telas que se sucendem com uma lentidão incomum em produções de suspense, não se passa nada mais que a vida cotidiana de camponeses austeros - aliás, muito parecida com a dos meus avos mineiros. A tensão está na expectativa de quem assiste, de que aquela série de 'acidentes' redundará em uma revelação.
Mas o final é tão comum quanto a vida das personagens. Ele se exime de uma solução e de um porquê, o que é a beleza e ao mesmo tempo a limitação do A Fita Branca. Enquanto desperta a plateia de suas expectativas viciadas, o longa desiste de resolver os conflitos que criou. A bela estética fica só e assume que não tem uma grande história que a sustente. O filme se torna raso.
Já em O Segredo dos Seus Olhos, os desfechos se multiplicam. Uma sucessão de clímax leva o espectador a pré-sentir o final, para logo se surpreender com uma 'solução' ainda mais inteligente para o caso mais intrigante que o promotor aposentato Benjamín Esposito teve em sua carreira. Por trás das câmeras em movimento, das esquinas de uma Buenos Aires europeia, do olhar aceso dos atores ou do dedilhar de um piano triste há um assunto universal: a justiça - ou a ausência dela.
Como Haneke, Campanella se propõe a contar um caso de polícia de forma mais realista, humana. Ambos matêm a tensão e dão as peças do enigma a conta-gotas. O grande diferencial, é que o argentino se compromete a montar o quebra-cabeça. Ele fecha sua nada rasa reflexão sobre o sistema penal e presenteia o público com um grand finale. O melhor que já vi.
sábado, 3 de julho de 2010
Não dá para mudar de assunto?
Quem não é filho único nem irmão caçula sabe o que é ter ciúmes da chegada de um irmão. Se não sabe, é porque era tão criança que ainda não tinha aquela habilidade de memorizar mágoas que a razão dá a quem cresce.
E quem não se perguntou o que vai ser quando crescer? Melhor, quem nunca foi coagido a responder essa questão existencialista, fosse nas 30 linhas de uma redação da escola ou na visita de uma tia distante que não tinha mais o que perguntar? Aliás, os adultos são cruéis. Entre si, usam o clima, o futebol, a moda para começar uma conversa. Com as crianças, falam a queima-roupa sobre papai-do-céu, 'quando crescer', 'pode e não pode' ... assuntos para os quais nem eles mesmos, nem a Filosofia, têm uma resposta redonda.
Foto: Imovision/Divulgação
Enquanto busca a tal resposta que a sociedade tanto lhe cobra, Nicolau, uma espécie (em extinção) de garoto popular sem consciência de seu carisma, arma mil planos com os colegas para não ser abandonado pelos pais quando o irmão nascer. A imaginação do grupinho e, mais ainda, seu sincero empenho em cumprir missões impossíveis aos olhos de um barbudo sensibiliza qualquer plateia. Fica no sorriso bobo dos expectadores a nostalgia do tempo em que sonhar era coisa séria.
Já o cinema, ao ascender as luzes, deixa nostalgia do próprio filme, de uma leveza, despretensão e universalidade que pouco se vê em cartaz. Infelizmente, 'Amélies Poulain' e 'Nicolaus' estão em poucos roteiros de nossa geração. Empenhada em fazer do Cinema uma extensão do noticiário, ela não percebe que constrói um dos primeiros clichês do século XXI.
Assinar:
Postagens (Atom)
