domingo, 15 de agosto de 2010

A não-palestra de Jostein Gaarder

O escritor norueguês Jostein Gaarder é conhecido por aproximar a Filosofia dos leigos. Seu best-seller, O Mundo de Sofia (Sofies Verden), já foi traduzido para mais de 50 idiomas desde o seu lançamento, em 1991. Pelo menos 30 milhões (veja bem, 6 vezes a população da Noruega) de adolescentes, professores e curiosos de toda a espécie já seguiram as aventuras de Alberto Knox e sua pupila Sofia pela a história da Filosofia, dos pré-socráticos ao nosso contemporâneo Jean-Paul Sartre. Gaarder, que sempre repete em entrevistas sua perplexidade pelo sucesso de um tema pouco popular, disse, recentemente que está satisfeito com o interesse de Hollywood em filmar o romance: vai alcançar ainda mais pessoas.

Fiquei pensando ontem com os botões de um casaco pesado, em uma das noites mais frias de SP, o que Jostein Gaarder teria feito se soubesse do caminho percorrido por quem não assistia à sua palestra na 21 Bienal do Livro de São Paulo, do número de pessoas que ela deixou de atingir por simples força das normas.

Na noite de ontem, o norueguês lançava seu mais novo romance, O Castelo nos Pirineus, para um público de seletas 150 pessoas, comportadamente acomodado em cadeiras brancas (muito) bem espaçadas. Ninguém podia sentar no chão nem ficar em pé, só a imprensa. O auditório era uma redoma de vidro encapada com fotos de Clarice Linspector, exceto por um retângulo vertical que permitia ao público exterior contemplar a principal atração da feira sem ouví-lo. Como, em um evento literário, a estética pode ser mais importante que as palavras?

Mas voltemos ao espaço, de cerca de 100 m², menor do que o estande de várias editoras que vendiam seus volumes sem descontos. Enquanto participava do quadro "O Mundo de Gaarder", tal como a Sofia-mera-personagem-de-uma-história-e-sujeita-a-forças-maiores, Jostein provavelmente nem vislumbrava que existia um mundo muito maior lá fora. O Anhembi tem uma área de 400 mil m² e seu pavilhão de exposições precisa ser divido em ruas e esquinas para que os participantes não se percam.

Lá, de dentro do aquário, Gaarder não sabia da fila de mais de uma hora que se formava literalmente atrás dele, bem às suas costas. Nela, estavam pessoas que não conseguiram pegar uma das 150 senhas que foram distribuídas às 17h, duas horas antes do início da palestra. Pessoas que, pelo sotaque, vinham de muitos lugares e de bem longe. Leitores que tentavam argumentar com as impávidas moças de terno preto que não precisavam de um aparelho de tradução simultânea, que falavam bem inglês e queriam só um lugarzinho na porta. Em vão. Meia hora após o início da conversa (só então), mais uma agente da estética percorre a fila: "Ninguém mais entra! Ninguém mais entra!".

E o mais revoltante para o final: como saber que era necessário pegar senhas para assistir à palestra e como saber a que horas elas seriam distribuídas? Em nossa bola de cristal, é claro! No site do evento, não há informações sobre senha. Não há também um número de telefone para tirar dúvidas, sequer um endereço de e-mail. No menu 'contato', tudo o que consta é um formulário para ser preenchido, enviado e sabe-se lá quando respondido. Nem o contato de telefone disponibilizado para a imprensa atendia na tarde de ontem. Sorte de quem chegou muito cedo e ouviu falar da distribuição de senhas, como uma leitora com quem conversei. Ela passou pelo local por volta das 16h, viu uma fila “gigante” e ficou. Quem chegou depois teve que se contentar em observar pelo vidro - alguém pensou em zoológico? - o escritor que quer atingir todos e sua conversa com os escolhidos por um evento que quer (?) deselitizar a literatura. Só faltou uma legenda para os desavisados: Homo sapiens paradoxos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Resistência pela memória: 65 anos sem Hiroshima e uma (inesquecível) noite em Milão


Dia desses, nas minhas últimas horas de trabalho no meu trabalho derradeiro, conversava com uma amiga nipônica sobre .... hmm, ok, confesso que tudo começou com mais um dos meus causos.

Já ao final de uma jornada cansativa, um amigo me liga chamando para ir ao cinema. Era uma noite fria, sem neve, dos etílicos meses sóbrios em que vivi em Milão. A idéia era ir a um cinema diferente, de rua, nada de imex. Aceitei, claro, mas não sem desejar que a película fosse dublada e bem palatável. A dor de cabeça me escravizava.

Mal estacionamos nossa vespa em frente ao tal espaço alternativo, Jacopo cisma em ver um 'Cartas de Iwo Jima', com áudio japonês e legenda em italiano. A dor de cabeça era tanta que nem animei discutir. Entramos na sala escura.
Passados três anos, muitas sessões de cinema e 65 verões desde a devastação de Hiroshima e Nagazaki, hoje não posso fazer menos que recomendar o filme. Apesar de anglófono, Clint Eastwood dá um poderoso retrato do que foi a agonia e, sobretudo, a resistência japonesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Cartas, mensagens, palavras, lembranças. Com uma fotografia impecável, o espectador ocidental é tocado pelo o que mais lhe falta em se tratando do conflito: informações sobre quem estava do outro lado – o dos mais fracos. A 2GM foi provavelmente uma das poucas guerras em que a história foi contada também sob a ótica dos vencidos. Culpa da curiosidade que despertaram a loucura de Hitler e o carisma de Mussolini.

Mas ainda se sabe muito pouco sobre o que aconteceu no oriente. Sabe-se pouco sobre os ‘perdedores’ de fato: a população dos países do Eixo, espremida entre os ataques dos aliados e a crueldade de seus ditadores. Essas pessoas se organizaram e resistiram como puderam. Mas o que se sabe sobre isso? Teste rápido: quantos filmes conhecemos sobre os partigiani ? Aliás, alguém sabe quem eles foram? (recomendo o singelo e fascinante livro 'I sentieri dei Nidi di Ragni', do cubano Ítalo Calvino).

No aniversário dessa tragédia, não podemos fazer menos que lembrar os que resistiram. Recordar histórias como a do pai de minha colega de redação, que percorreu a pé metade da ilha de Okinawa para escapar dos americanos. Quanto a nós, geração de hoje, temos a missão de resgatar e reverberar essas memórias. Elas são a linha de frente da resistência contra injustiças e os novos massacres que se insinuam.





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E a noite não acabou por ali, com o casting de atores orientais...A moto de Jacopo quebrou, bem em frente ao cafe do cinema. Fiquei alguns longos minutos tentando tirar o capacete da cabeça, enquanto meu amigo tentava (sem um pingo de silêncio) fazer a motoca funcionar. Nada. Tivemos que empurrar a magrela até a casa de Jacopo, que, por sorte, não era muito longe. Depois do mico, já naquela peculiar cozinha ornada com armações de óculos, ecco a recompensa: uma caprichada fatia de bolo de laranja, chazinho com uma pitada de açúcar e aquelo dedo de prosa. Já às portas da madrugada, Jacopo suspira e, com algum pesar, abandona seu hábito italiano: tira um belo carro da garagem e me leva para casa em quatro rodas.