quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Resistência pela memória: 65 anos sem Hiroshima e uma (inesquecível) noite em Milão


Dia desses, nas minhas últimas horas de trabalho no meu trabalho derradeiro, conversava com uma amiga nipônica sobre .... hmm, ok, confesso que tudo começou com mais um dos meus causos.

Já ao final de uma jornada cansativa, um amigo me liga chamando para ir ao cinema. Era uma noite fria, sem neve, dos etílicos meses sóbrios em que vivi em Milão. A idéia era ir a um cinema diferente, de rua, nada de imex. Aceitei, claro, mas não sem desejar que a película fosse dublada e bem palatável. A dor de cabeça me escravizava.

Mal estacionamos nossa vespa em frente ao tal espaço alternativo, Jacopo cisma em ver um 'Cartas de Iwo Jima', com áudio japonês e legenda em italiano. A dor de cabeça era tanta que nem animei discutir. Entramos na sala escura.
Passados três anos, muitas sessões de cinema e 65 verões desde a devastação de Hiroshima e Nagazaki, hoje não posso fazer menos que recomendar o filme. Apesar de anglófono, Clint Eastwood dá um poderoso retrato do que foi a agonia e, sobretudo, a resistência japonesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Cartas, mensagens, palavras, lembranças. Com uma fotografia impecável, o espectador ocidental é tocado pelo o que mais lhe falta em se tratando do conflito: informações sobre quem estava do outro lado – o dos mais fracos. A 2GM foi provavelmente uma das poucas guerras em que a história foi contada também sob a ótica dos vencidos. Culpa da curiosidade que despertaram a loucura de Hitler e o carisma de Mussolini.

Mas ainda se sabe muito pouco sobre o que aconteceu no oriente. Sabe-se pouco sobre os ‘perdedores’ de fato: a população dos países do Eixo, espremida entre os ataques dos aliados e a crueldade de seus ditadores. Essas pessoas se organizaram e resistiram como puderam. Mas o que se sabe sobre isso? Teste rápido: quantos filmes conhecemos sobre os partigiani ? Aliás, alguém sabe quem eles foram? (recomendo o singelo e fascinante livro 'I sentieri dei Nidi di Ragni', do cubano Ítalo Calvino).

No aniversário dessa tragédia, não podemos fazer menos que lembrar os que resistiram. Recordar histórias como a do pai de minha colega de redação, que percorreu a pé metade da ilha de Okinawa para escapar dos americanos. Quanto a nós, geração de hoje, temos a missão de resgatar e reverberar essas memórias. Elas são a linha de frente da resistência contra injustiças e os novos massacres que se insinuam.





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E a noite não acabou por ali, com o casting de atores orientais...A moto de Jacopo quebrou, bem em frente ao cafe do cinema. Fiquei alguns longos minutos tentando tirar o capacete da cabeça, enquanto meu amigo tentava (sem um pingo de silêncio) fazer a motoca funcionar. Nada. Tivemos que empurrar a magrela até a casa de Jacopo, que, por sorte, não era muito longe. Depois do mico, já naquela peculiar cozinha ornada com armações de óculos, ecco a recompensa: uma caprichada fatia de bolo de laranja, chazinho com uma pitada de açúcar e aquelo dedo de prosa. Já às portas da madrugada, Jacopo suspira e, com algum pesar, abandona seu hábito italiano: tira um belo carro da garagem e me leva para casa em quatro rodas.

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