sexta-feira, 18 de março de 2011

Tirar passaporte no Brasil: missão impossível


Morar ao lado da Cracolândia é a melhor coisa que um jornalista em busca de assunto pode fazer. Nunca duvidei da liderança da Luz e região como melhor fonte de pautas, mas hoje, voltando de um posto de tiragem/renovação de passaporte da Polícia Federal, mudei de ideia. Quem é estrangeiro no Brasil ou depende do documento de viagem sabe bem que o surrealismo dos procedimentos da PF pode surpreender mais do que as cenas do abandonado centro paulistano.

Pois bem, ao caso. Em novembro do ano passado, agendei uma 'entrevista' no site da Polícia Federal para renovar meu passaporte. Consegui uma vaguinha para meados de janeiro deste ano, no distante posto do Shopping Metro Tatuapé, Zona Leste de São Paulo. Entre uma revista de cosméticos e outras, as funcionárias receberam minha papelada na hora marcada e aproveitaram o movimento tranquilo para continuar falando de cores de esmalte e tratamentos de cabelos enquanto registravam meu nome, lugar de origem e outras informações sem importância que, se incorretas, não causariam mais do que uma deportação ou prisão no estrangeiro.

Por sorte minha, vivo em tempos modernos, tudo é digitalizado, 2.0 e a PF tira a foto do passaporte na hora, sem custos adicionais. Mas, e se a foto não ficar boa?

-Posso tirar outra? - perguntei depois que a funcionária me mostrou minha silhueta torta em uma câmera digital.

Pausa. Silêncio de alguns segundos. Olhar sério. Suspiro de insatisfação.

-Tá bom, mas só mais uma, hein? - respondeu.

Voilá! Funcionalismo público, a gente entende (perderam uma oportunidade de me livrar do meus preconceitos). Respira fundo, guarda a papelada de volta no envelope e espera a tal notificação por e-mail – que, de fato, não demorou a chegar:

“Informamos que o documento de viagem solicitado em 24/11/2010 sob nº de protocolo xxxx já está confeccionado e deverá estar disponível para entrega em 24 horas. Favor comparecer à Unidade/Posto do DPF SHOPPING METRÔ TATUAPÉ/PEP - SHOPPING TATUAPÉ - SP, no prazo indicado”

E só. Nenhum prazo estava indicado abaixo, salvo a seguinte advertência: “Caso o documento de viagem não seja retirado no prazo de 90 dias o mesmo será cancelado ” (SIC).

Por razões diversas (leia-se trabalho), pude comparecer ao posto somente hoje (ainda bem antes do dia 19 de abril, data limite para a retirada do meu passaporte). Claro que tomei o cuidado de ligar antes no 194, único número que encontrei na parte de passaporte do site da Polícia Federal.

-Oi, qual é o horário de funcionamento da unidade do Tatuapé? - quis saber da atendente.

-Você tem que estar ligando para a unidade, senhora. - respondeu de forma cordial.

-Tá certo. Qual é o telefone do Tatuapé?

-Você já consultou o nosso site?

-Já e este foi o único telefone que eu achei.

Pausa curta

-Nossas unidades funcionam em horário comercial, senhora.

-Comercial até que horas? Até às 18h?

-Isso, até as 18h.

Pois eis que hoje consigo uma proeza. Sai alguns minutos mais cedo do trabalho e cruzei uma São Paulo chuvosa, em plena sexta-feira, em apenas uma hora. Ao chegar esbaforida ao posto do Tatuapé, encontro um balcão de atendimento vazio, um computador ligado e um senhor recém-chegado.

-Será que vão nos atender? - perguntou ele.

Ambos tocamos a campainha e olhamos em nossos relógios.

-Tem que atender, ainda são 5 para as 18h, né? – repliquei.

Depois de algum tempo sem resposta, bati na porta de vidro coberta com o logo da PF que fica ao lado do balcão de atendimento. Uma moça apareceu.

O senhor pediu informações sobre renovação de passaporte, se poderia reagendar a data, como tinha que fazer etc. Mesmo ciente da minha presença, a atendente terminou de falar com ele e virou as costas. Toquei a campainha de novo e ela voltou.

- Vim pegar meu passaporte – disse.

-Já passou do horário. – respondeu secamente.

-Não. Eu cheguei junto com esses senhor, antes das 18h.

- Nós só atendemos até as 17h.

Quê? Será que eu sofro de surdez precoce?

-Olha, esse senhor acabou de ser atendido. Eu liguei antes para a DPF e me foi informado que vocês atendem até às 18h.

-Você tem entrevista marcada para retirar o passaporte?

-Han? Eu não foi informada sobre isso! No e-mail de aviso de chegada do passaporte que eu recebi, também não dizia que eu tinha que marcar hora.

- Mas tem que agendar ….

E nisso chega uma funcionária mais velha:

-A gente só atende até as 17h.

-Mas eu liguei antes e fui informada de que vocês atendem ate às 18h.

-Então informaram errado. - retrucou a mais nova, provavelmente fortalecida pela presença da colega.

Eles são treinados para desafiar nossa paciência? Só pode.

A jovem atendente ainda pegou uma tira de papel de uns 5 centímetros de altura (até então desconhecida para mim) e me acusou:

- Aqui, toma! Está escrito que atendemos até às 17h. Quando você veio fazer seu passaporte ganhou um desses. Se você perdeu, azar o seu.

Concordo! Azar o meu de ter sido atendida por pessoas que me dão informações erradas. Mas eu ainda tentei:

-Eu vim aqui só retirar um passaporte. É só pegar o documento e me dar.

-Não, não é simples assim! - retrucou a mais velha, já bem transtornada – Precisa de computador e os computadores já estão desligados.

-Mas está computador está ligado – e apontei o pc mais próximo.

-Mas esse não serve!

Mas eu sou brasileira e não desisto:

-Olha, eu liguei antes, me informaram que vocês atendem até às 18h e o senhor que estava aqui foi atendido na minha frente.

-Que senhor?? Chama ele aqui que eu quero ver! – explodiu a mais velha.

-Ele não foi atendido, eu só passei informações para ele. - explicou a mais nova.

- E passar informações não é atender?

Ai deu tilt. Outra pausa, outros segundos de silêncio. Sem o que dizer, a mais velha chama a mais nova para dentro e fecha a porta na minha cara.

Infelizmente eu não estava na padaria, na lojinha de roupas ou no balcão de uma empresa aérea. Não tinha para quem reclamar. A Polícia Federal te dá informações erradas, te trata mal, faz falta de educação e você vai fazer o que? Reclamar para o gerente? Para o superior (que superior?? nem as funcionárias eram identificadas). Vai processar? Hahaha, processar a PF, o próprio Estado?

Senti os dedos tremerem, a boca formigar. O que fazer? Como superar a sensação de impotência, de injustiça?

Não deve mudar absolutamente nada, outros possivelmente vão passar até mais raiva do que eu, mas faço agora tudo que pareceu estar em meu poder, aquilo que prometi às funcionárias, enquanto elas fechavam a porta: vou contar minha história.

Ps. Após o transtorno, voltei a ligar para o 194 da Polícia Federal. A atendente me garantiu que não preciso agendar entrevista "de forma alguma" pararetirar meu passaparte. Segundo ela, é "recomendável" que eu leve o RG para provar quem sou. Mais nada. Guardei o número do protocolo de atendimento.

Um comentário:

  1. Este pessoal da policia federal, nao tem conideraçao nenhuma pelas pessoas. São extremamente mal educados e grosseiros. Mas de uma coisa tenho certeza; passaporte pra familia e amigos deles, devem ser feitos na hora e sem agendar. Por isso q o Brasil nao vai pra frente.

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