O escritor norueguês Jostein Gaarder é conhecido por aproximar a Filosofia dos leigos. Seu best-seller, O Mundo de Sofia (Sofies Verden), já foi traduzido para mais de 50 idiomas desde o seu lançamento, em 1991. Pelo menos 30 milhões (veja bem, 6 vezes a população da Noruega) de adolescentes, professores e curiosos de toda a espécie já seguiram as aventuras de Alberto Knox e sua pupila Sofia pela a história da Filosofia, dos pré-socráticos ao nosso contemporâneo Jean-Paul Sartre. Gaarder, que sempre repete em entrevistas sua perplexidade pelo sucesso de um tema pouco popular, disse, recentemente que está satisfeito com o interesse de Hollywood em filmar o romance: vai alcançar ainda mais pessoas.
Fiquei pensando ontem com os botões de um casaco pesado, em uma das noites mais frias de SP, o que Jostein Gaarder teria feito se soubesse do caminho percorrido por quem não assistia à sua palestra na 21 Bienal do Livro de São Paulo, do número de pessoas que ela deixou de atingir por simples força das normas.
Na noite de ontem, o norueguês lançava seu mais novo romance, O Castelo nos Pirineus, para um público de seletas 150 pessoas, comportadamente acomodado em cadeiras brancas (muito) bem espaçadas. Ninguém podia sentar no chão nem ficar em pé, só a imprensa. O auditório era uma redoma de vidro encapada com fotos de Clarice Linspector, exceto por um retângulo vertical que permitia ao público exterior contemplar a principal atração da feira sem ouví-lo. Como, em um evento literário, a estética pode ser mais importante que as palavras?
Mas voltemos ao espaço, de cerca de 100 m², menor do que o estande de várias editoras que vendiam seus volumes sem descontos. Enquanto participava do quadro "O Mundo de Gaarder", tal como a Sofia-mera-personagem-de-uma-história-e-sujeita-a-forças-maiores, Jostein provavelmente nem vislumbrava que existia um mundo muito maior lá fora. O Anhembi tem uma área de 400 mil m² e seu pavilhão de exposições precisa ser divido em ruas e esquinas para que os participantes não se percam.
Lá, de dentro do aquário, Gaarder não sabia da fila de mais de uma hora que se formava literalmente atrás dele, bem às suas costas. Nela, estavam pessoas que não conseguiram pegar uma das 150 senhas que foram distribuídas às 17h, duas horas antes do início da palestra. Pessoas que, pelo sotaque, vinham de muitos lugares e de bem longe. Leitores que tentavam argumentar com as impávidas moças de terno preto que não precisavam de um aparelho de tradução simultânea, que falavam bem inglês e queriam só um lugarzinho na porta. Em vão. Meia hora após o início da conversa (só então), mais uma agente da estética percorre a fila: "Ninguém mais entra! Ninguém mais entra!".
E o mais revoltante para o final: como saber que era necessário pegar senhas para assistir à palestra e como saber a que horas elas seriam distribuídas? Em nossa bola de cristal, é claro! No site do evento, não há informações sobre senha. Não há também um número de telefone para tirar dúvidas, sequer um endereço de e-mail. No menu 'contato', tudo o que consta é um formulário para ser preenchido, enviado e sabe-se lá quando respondido. Nem o contato de telefone disponibilizado para a imprensa atendia na tarde de ontem. Sorte de quem chegou muito cedo e ouviu falar da distribuição de senhas, como uma leitora com quem conversei. Ela passou pelo local por volta das 16h, viu uma fila “gigante” e ficou. Quem chegou depois teve que se contentar em observar pelo vidro - alguém pensou em zoológico? - o escritor que quer atingir todos e sua conversa com os escolhidos por um evento que quer (?) deselitizar a literatura. Só faltou uma legenda para os desavisados: Homo sapiens paradoxos.
domingo, 15 de agosto de 2010
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Que bom que você esteve lá para relatar o acontecimento. Quanto ao ser humano, eu diria homo não tão sapiens assim, porém, muito paradoxos.
ResponderExcluirMarcelão.
kkk, Kivinha, é bem provável que alguém tenha tido vontade de restringir ou elitizar, pelo que está falando.
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